Pesquisa da Fiocruz revela contaminação por mercúrio em terra indígena do Pará

G1 - https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia - 07/12/2020
Pesquisa da Fiocruz revela contaminação por mercúrio em terra indígena do Pará
Segundo os pesquisadores da Fiocruz, a contaminação está relacionada com o avanço do garimpo ilegal nas terras indígenas do povo Munduruku. O mercúrio utilizado na extração clandestina de ouro é despejado nos rios da região, onde passa por um processo químico e se torna muito mais tóxico.

Por Jornal Nacional
07/12/2020

Uma pesquisa da Fiocruz revelou uma consequência alarmante do garimpo ilegal em uma terra indígena no Pará.

A pesquisa durou um ano. Cientistas da Fiocruz, com apoio da organização ambiental WWF-Brasil, estiveram em três aldeias da Terra Indígena Sawré Muybu, do povo Munduruku, no sudoeste do Pará. A equipe realizou entrevistas e exames em 200 indígenas. Em todos, os pesquisadores detectaram mercúrio nas amostras de cabelo. De cada dez indígenas, seis apresentaram níveis acima do limite considerado seguro por agências internacionais.

Apenas na aldeia que fica às margens do rio Jamanxim, nove em cada dez indígenas tinham altas taxas de mercúrio. A intoxicação por mercúrio pode provocar problemas respiratórios, renais e atacar principalmente o sistema nervoso.

Crianças menores de cinco anos passaram por testes de neurodesenvolvimento; 16% apresentaram problemas de coordenação motora e na fala. Um bebê de 11 meses apresentou níveis de mercúrio três vezes acima do tolerável.

"Se a mãe tem um alto nível de mercúrio no sangue, esse mercúrio vai passar para a criança por intermédio da placenta, e essa criança pode já nascer comprometida. Pode apresentar mal formação congênita, pode apresentar paralisia cerebral. Em outras palavras: o mercúrio para as crianças pode ser uma grave ameaça, pode comprometer gerações e gerações de pessoas que estão cronicamente contaminadas", explica Paulo Basta, pesquisador da Fiocruz.

Segundo pesquisadores da Fiocruz, a contaminação está relacionada com o avanço do garimpo ilegal nas terras indígenas do povo Munduruku. O mercúrio utilizado na extração clandestina de ouro é despejado nos rios da região, onde passa por um processo químico e se torna muito mais tóxico.

A pesquisa constatou a presença de mercúrio em todos os 88 peixes coletados, de cinco espécies. Por isso, os cientistas estimaram que os indígenas estão ingerindo uma quantidade de mercúrio até 18 vezes maior que o limite seguro. E que também coloca em risco pessoas que ficam a quilômetros de distância.

"Essas pessoas como você, que estão em Belém e vão ao mercado ver o peso comprar peixe para assar, para fazer uma caldeirada do jeito que sua família gosta, pode estar sujeita a estar consumindo um peixe contaminado. Porque o peixe vem do mesmo rio que está presente no território tradicional", destaca Paulo Basta.

A principal recomendação do estudo é a interrupção do garimpo ilegal e a retirada dos invasores das terras indígenas. A maior parte dos munduruku é contra o garimpo na terra indígena, mas um pequeno grupo de índios participa da extração ilegal de ouro na região.

O resultado da pesquisa nas aldeias trouxe preocupação a lideranças do povo Munduruku. "A sobrevivência dos povos indígenas é o peixe. Isso é grave. A gente precisa denunciar, a gente precisa punir essas pessoas que estão acabando com o rio e também estão, principalmente, prejudicando a nossa saúde", destaca Alessandra Korap Munduruku, liderança indígena.

O Ministério do Meio Ambiente afirmou que a responsabilidade por apurar o caso é do Conselho da Amazônia, que ainda não retornou o contato do Jornal Nacional. A Funai também não respondeu ao pedido do JN de informação.


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PIB:Tapajós/Madeira

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